Uber expulsa autista do carro na BR-101

Autista é expulso no Uber na rodovia BR-101 - Revista Autismo

Uber expulsa autista do carro na BR-101

“Ele não merece ser tratado assim”. Esta foi a frase da mãe de um garoto autista, após a família ter sido expulsa do carro, durante uma corrida de Uber, em janeiro último, às margens da rodovia BR-101, na cidade de Paulista (PE), a 18 km da capital, Recife. A mensagem foi postada por Elaine Caroline do Nascimento e Silva, no Facebook, e rapidamente recebeu vários compartilhamentos nas redes sociais.

O fato aconteceu quando voltavam de um clube próximo, em Guabiraba, um bairro de Recife. Após o post viralizar rapidamente, eles receberam diversas mensagens de apoio e pedidos de uma posição da Uber, empresa de motoristas por aplicativo.

Expulsão

A reportagem da Revista Autismo conversou por telefone com Elaine, a mãe de Luigi, de quatro anos, autista não-verbal, que começou a gritar e chorar, numa crise no carro do Uber. O garoto estava no banco de trás, entre os pais, numa cadeirinha infantil para carros, cansado, após ter passado o dia brincando num clube.

O motorista ameaçou encerrar a corrida. Os pais explicaram que o menino é autista e que estavam tentando acalmá-lo. Segundos depois, o motorista parou o carro. “Na hora, eu perguntei pro motorista: ‘Você vai nos deixar aqui, no meio da rodovia? Com uma criança?’, ele respondeu secamente: ‘Não me importo, não. Vocês vão descer agora’ e encerrou a corrida sem cerimônia.

Os quatro da família — Elaine, seu o marido, Silas, e o pequeno Luigi no colo do avô materno —, depois de expulsos do carro no meio da BR-101, próximo ao retorno para Paulista (PE), atravessaram a rodovia e partiram à pé para casa, enquanto Silas tentava chamar outro Uber. Três minutos depois, felizmente, conseguiram outro carro pelo aplicativo e voltaram para casa, sem mais incidentes.

Em casa, Elaine colocou Luigi embaixo do chuveiro, estratégia que ela sempre usa para acalmar o garoto. “Ele adora banho e o acalma”, contou a mãe.

Luigi é autista não-verbal e foi diagnosticado aos três anos, apesar da mãe suspeitar desde um ano de idade. “Ele não falava, não atendia pelo nome e nunca procurava outras crianças”, relembra. Hoje o garoto toma medicamentos, inclusive, por causa de convulsões, e faz terapia com profissionais de psicologia e fonoaudiologia. “Muita gente vê uma criança autista em crise e acha que é birra. Quando não está em crise, dizem que não parece que meu filho tenha autismo. A maioria não sabe que autismo não tem cara”, lamentou Elaine.

Na segunda-feira, dia seguinte ao incidente, a Uber ligou para Elaine e se colocou à disposição, além de ter pedido desculpas pelo ocorrido. “Eles disseram ter verificado que realmente a corrida foi encerrada no meio da BR-101 e que tomarão todas as providências internas para o caso”, relatou.

Quanto ao motorista, a família prefere não citar seu nome e está avaliando se aciona a Justiça, pois tem medo de sofrer retaliações na cidade.

O que diz a Uber

Ouvimos também a Uber que deu a seguinte resposta oficial: “A Uber leva esse tipo denúncia muito a sério e lamentamos que essa situação tenha ocorrido dentro da nossa plataforma. A empresa tem uma política de tolerância zero a qualquer forma de discriminação em viagens pelo aplicativo e se orgulha  em oferecer opções de mobilidade eficientes e acessíveis para todos. Assim que soubemos do incidente, entramos em contato com a família da criança para oferecer apoio e tomar as medidas necessárias. A Uber defende o respeito à diversidade e reafirma o seu compromisso de promover o respeito, igualdade e inclusão para todas as pessoas que utilizam o nosso app”.

Em conversa com a Uber, a Revista Autismo sugeriu que fosse feito um treinamento para os motoristas lidarem melhor com as pessoas com deficiência, sobretudo com autistas. Eles disseram que não podem, pois os motoristas, que são autônomos, não têm vínculo empregatício com a Uber. Sugerimos, então, que a empresa produzisse vídeos educativos para conscientizar os motoristas, oferecendo como material opcional pelo menos. A Uber disse que irá levar nossa proposta aos líderes da empresa.

O motorista

Tentamos contato com o motorista, mas ele não nos respondeu — vamos preservar o nome dele aqui. Para o portal Singularidades, ele deu sua versão e disse: “Não posso mudar os fatos, apenas lamentar profundamente“.

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Luigi, ao lado dos pais.

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