ABA: uma intervenção comportamental eficaz em casos de autismo

Por Sabrina Ribeiro

O autismo é uma condição crônica, caracterizado pela presença de importantes prejuízos em áreas do desenvolvimento, por esta razão o tratamento deve ser contínuo e envolver uma equipe multidisciplinar (Schwartzman, 2003).

A eficácia de um tratamento depende da experiência e do conhecimento dos profissionais sobre o autismo e, principalmente, de sua habilidade de trabalhar em equipe e com a família (Bosa, 2006).

Existem vários tipos de tratamento que podem ser usados para ajudar uma criança com autismo. Independente da linha escolhida, a maioria dos especialistas ressalta que: o tratamento deve começar o mais cedo possível; as terapias devem ser adaptadas às necessidades específicas de cada criança e a eficácia do tratamento deve ser medida com os avanços da criança.

Sabe-se que uma boa intervenção consegue reduzir comportamentos inadequados e minimizar os prejuízos nas áreas do desenvolvimento. Os tratamentos visam tornar os indivíduos mais independentes em todas as suas áreas de atuação, favorecendo uma melhoria na qualidade de vida das pessoas com autismo e suas famílias.

Neste artigo tentarei explicar ao leitor um pouco sobre a metodologia ABA, que é usada como um método de intervenção comportamental no tratamento dos sintomas do autismo.

A análise do comportamento aplicada, ou ABA (Applied Behavior Analysis, na sigla em inglês) é uma abordagem da psicologia que é usada para a compreensão do comportamento e vem sendo amplamente utilizada no atendimento a pessoas com desenvolvimento atípico, como os transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs). ABA vem do behaviorismo e observa, analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento humano e a aprendizagem (Lear, K., 2004)

As origens experimentais da terapia comportamental trouxeram algumas vantagens importantes ao clínico: ele foi treinado na observação de comportamentos verbais e não verbais, seja em casa, na escola e/ou no próprio consultório, o que é fonte de dados relevantes. Ele estuda o papel que o ambiente desempenha – ambiente este onde é possível interferir e verificar as hipóteses levantadas. Outra habilidade é o entendimento do que é observado como um processo comportamental, com contínuas interações e, portanto, sujeito a mudanças (Windholz, 2002).

As técnicas de modificação comportamental têm se mostrado bastante eficazes no tratamento, principalmente em casos mais graves de autismo. Para o analista do comportamento ser terapeuta significa atuar como educador, uma vez que o tratamento envolve um processo abrangente e estruturado de ensino-aprendizagem ou reaprendizagem (Windholz, 1995).

Um dos princípios básicos da ABA é que um comportamento é qualquer ação que pode ser observada e contada, com uma freqüência e duração, e que este comportamento pode ser explicado pela identificação dos antecedentes e de suas consequências. É a identificação das relações entre os eventos ambientais e as ações do organismo. Para estabelecer estas relações devemos especificar a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as conseqüências reforçadoras (Meyer, S.B., 2003).

Estes comportamentos são motivados, de forma prazerosa. Eles têm uma função: servem para conseguir algo que se deseja.

Sabemos que todos os comportamentos de um modo geral são aprendidos, bem como os comportamentos problemas. Isso não significa que alguém intencionalmente nos ensinou a exibir este tipo de comportamento problema, apenas que aprendemos que eles são eficazes para conseguirmos o que queremos.

O método ABA pode intencionalmente ensinar a criança a exibir comportamentos mais adequados no lugar dos comportamentos problemas.

Comportamentos estão relacionados a eventos ou estímulos que os precedem (antecedentes) e a sua probabilidade de ocorrência futura está relacionada às conseqüências que os seguem.

Todo comportamento é modificado através de suas conseqüências (Moreira e Medeiros, 2007). Tentamos fazer coisas e se elas funcionam faremos novamente; quando nossas ações não funcionam é menos provável que as realizemos novamente no futuro.

Os objetivos da intervenção são:

1. Trabalhar os déficits, identificando os comportamentos que a criança tem dificuldades ou até inabilidades e que prejudicam sua vida e suas aprendizagens.

2. Diminuir a freqüência e intensidade de comportamentos de birra ou indesejáveis, como, por exemplo: agressividade, estereotipias e outros que dificultam o convívio social e aprendizagem deste indivíduo.

3. Promover o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas, adaptativas, cognitivas, acadêmicas etc.

4. Promover comportamentos socialmente desejáveis

A intervenção é baseada em uma análise funcional, ou seja, análise da função do comportamento determinante, para eliminar comportamentos socialmente indesejáveis. Este é um ponto central para entendermos qual é o propósito do comportamento problema que a criança está apresentando e, com isso, montarmos a intervenção para modificá-lo. Se o comportamento é influenciado por suas consequências, podemos manipulá-las para entendermos melhor como essa sequência se dá e também modificar os comportamentos das pessoas, programando conseqüências especiais para tal (Moreira e Medeiros, 2007).

O primeiro passo para se resolver um comportamento problema é identificar a sua função. Se não soubermos por que uma criança deve se engajar em um comportamento adequado (qual a função ou propósito), será difícil saber como devemos ensiná-la.

Pais, terapeutas e professores tendem a imaginar ou achar um motivo para o comportamento e isso incorrerá no insucesso da intervenção. A avaliação comportamental é a fase da descoberta, e visa à identificação e o entendimento de alguns aspectos relativos à criança com autismo e seu ambiente. Alguns dos objetivos da avaliação são:

  • Entender o repertório de comunicação da criança: presença ou não de linguagem funcional, contato visual, atendimento de ordens, entre outros;
  • Como ela se relaciona em seu ambiente: brinquedos preferidos, apresenta birras frequentes, como reage às pessoas; 
  • Qual a função de seus comportamentos;
  • Em que circunstâncias certos problemas ocorrem ou deixam de ocorrer com maior freqüência ou intensidade?
  • Quais as conseqüências fornecidas a esses comportamentos problema?

Com base nestas informações, o segundo passo é traçar pequenos objetivos a curto prazo, visando à ampliação de habilidades e eliminação de comportamentos inadequados, realizando a manipulação dos antecedentes (estratégias de prevenção).

É importante que a modificação de comportamentos desafiadores seja feita gradualmente, sendo a redução da ansiedade e do sofrimento o objetivo principal. Isto é feito pelo estabelecimento de regras claras e consistentes (quando o comportamento não é admitido ou permitido); uma modificação gradativa; identificação de funções subjacentes, tais como ansiedade ou incerteza; modificações ambientais (mudança nas atitudes ou tornar a situação mais previsível) e transformação das obsessões em atividades adaptativas (Bosa, 2006).

Modificando os antecedentes podemos prevenir que o comportamento problema aconteça.

Isto é realizado de diferentes maneiras:

1. Evitando situações ou pessoas que sirvam como antecedentes para o comportamento problema;

2. Controlando o meio ambiente – no decorrer da vida do indivíduo o ambiente modela, cria um repertório comportamental e o mantém; o ambiente ainda estabelece as ocasiões nas quais o comportamento acontece, já que este não ocorre no vácuo (Windholz, 2002).

3. Dividindo as tarefas em passos menores e mais toleráveis, o que chamamos de aprendizagem sem erro. Toda a intervenção está baseada na aprendizagem sem erros, ou seja, deixamos de lado o histórico de fracassos e ensinamos a criança a aprender.

Esta aprendizagem deve ser prazerosa e divertida para a criança, podendo-se usar reforçadores para manter a criança motivada. Um reforço é uma conseqüência que aumenta a probabilidade de esta resposta acontecer novamente. Quando um comportamento é fortalecido, é mais provável que ele ocorra no futuro.

Além do reforço, usamos a hierarquia de dicas: quando iniciamos o ensino de qualquer comportamento, ajudamos a criança a realizá-lo com a dica necessária, que pode ser verbal (total ou parcial), física, leve, gestual, visual ou auditiva – e planejamos a retirada dessa dica até que a criança seja capaz de realizar o comportamento de maneira independente.

O terceiro passo é a elaboração de programas de ensino. Os programas de ensino são individualizados, geralmente ocorrem em situação de “um para um” e envolvem as diversas áreas do desenvolvimento: acadêmica, linguagem, social, verbal, motora, de brincar, pedagógica e atividades de vida diária.

A metodologia ABA e seus procedimentos são constantes e padronizados, o que possibilita que mais de um professor (pessoa que realiza os programas) trabalhe com a criança.

Este é um programa intensivo e deve ser feito de 20 a 30 horas por semana. É importante ressaltar que este programa não é aversivo e rejeita qualquer tipo de punição.

A participação dos familiares da criança no programa é de grande contribuição para seu sucesso e assegura a generalização e manutenção de todas as habilidades aprendidas pela criança.


Sabrina Helena Bandini Ribeiro é psicóloga, trabalha com pessoas com autismo desde 1995, é mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em Assistência Psicoprofilática em Medicina Fetal, pela Universidade Federal de São Paulo, e atende em São Paulo e Atibaia (SP), além de ser professora do curso de graduação em Psicologia da FAAT (Faculdades Atibaia) e fez parte do grupo de pesquisa sobre transtornos invasivos do desenvolvimento e avaliação neuropsicológica do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: [email protected]


Conteúdo Extra

Bibliografia:

  • Bosa, A.C.; Autismo: Intervenções Psicoeducacionais, Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(Supl I):S47-53
  • Lear, K. Ajude-nos a Aprender. (Help us Learn: A Self-Paced Training Program for ABA Part 1:Training Manual). Traduzido por Windholz, M.H.; Vatavuk, M.C.; Dias, I. S.;Garcia Filho, A.P. e Esmeraldo, A.V.Canadá, 2004.
  • MEYER, S. B. Análise funcional do comportamento. In: COSTA, C E; LUZIA, J C; SANT’ANNA, H H N. (Org.). Primeiros Passos em Análise do Comportamento e Cognição. Santo André, 2003, p. 75-91.
  • Moreira, M.B.; Medeiros, C.A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento, Artmed, 2007, Porto Alegre.
  • Schwartzman, J.S. Autismo infantil, Editora Memnon, 2003.São Paulo
  • Windholz. M.H.; Passo a Passo, Seu caminho: Guia Curricular para o Ensino de Habilidades Básicas, Edicon, 1988. São Paulo.
  • Windholz. M.H.; A TERAPIA COMPORTAMENTAL COM PORTADORES DE TID (Transtornos Invasivos de Desenvolvimento). In: “Transtornos Invasivos de Desenvolvimento”, 3º Milênio,Walter Camargos Jr. e cols,Brasília, DF – Ministério da Justiça, 2002.

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Saiba o que é um QR-Code e como usá-lo

Um QR-Code é uma matriz, uma espécie de código de barras de duas dimensões (bidimensional, 2D). A diferença entre o código de barras convencional (aquele presente nas embalagens dos produtos, com uma sequência de números) e o QR-Code é que nesse cabe muitos caracteres, como um longo endereço da internet (URL) – até mais de 4 mil caracteres ou mais de 7 mil números.

O principal uso é para se fazer um link entre uma mídia impressa (como jornais e revistas) e uma mídia online (internet) – é um selo integrador de mídias. E esta Revista Autismo inova com o uso de QR-Codes para expandir o seu conteúdo, recurso quase nada utilizado no Brasil.

No exemplo ao lado, está “embutido” no QR-Code (ou codificado, como se deve dizer) o endereço do site desta revista (RevistaAutismo.com.br).

Mas como ler (ou decodificar) um QR-Code?

Há programas de leitura desses códigos para a grande maioria dos celulares com câmera, além de alguns para webcams (câmeras de computadores). Nos celulares, basta abrir o programa e apontar a câmera para o código, que é decifrado imediatamente – e para os que têm acesso a web no celular, o site abre-se imediatamente com a informação “linkada” online.

E o QR-Code não é novo. Foi criado em 1994, pela empresa Denso-Wave, do Japão, país onde é muito utilizado. O QR vem de quick response (resposta rápida, em inglês), pois o código pode ser rapidamente interpretado, mesmo com imagens de baixa resolução (VGA) feitas por câmeras como as dos celulares mais simples. E Code vem de código, em inglês, por isso alguns o chamam de código QR. É apontar, interpretar e acessar.

Material Extra

No Brasil, o primeiro anúncio publicitário a utilizar o código foi publicado pela Fast Shop (em dezembro de 2007). Mais tarde a Nova Schin publicou um anúncio com o código (em junho de 2008) e a Claro fez uma campanha utilizando o código QR (em novembro de 2008). A Revista Galileu, da Editora Globo, também aderiu QR para que o usuário tivesse acesso a informações extras através do seu celular.

O “A Tarde”, de Salvador (BA), tem usado o QR-Code desde 10 de dezembro de 2008 e foi o primeiro jornal impresso no País – reconhecido pela Associação Nacional de Jornais(ANJ) – a utilizar o código em suas páginas como selo integrador de mídias, levando o leitor do papel à internet.

Se quiser saber mais sobre os QR-Codes, leia o artigo na Wikipedia (em português).

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Editorial – Edição 0

Esta é a edição de lançamento da Revista Autismo — a número zero -, a concretização de uma meta buscada há muito tempo por pais e profissionais: levar informação séria e transparente de forma impressa, principalmente a pais e familiares de autistas que não têm acesso à internet (ou habilidade para isso). Destaque-se que há muita informação na internet (confiável e não confiável).

A revista é produzida por pais e profissionais que fizeram dessa luta pela democratização da informação a respeito de autismo uma meta, a qual hoje está sendo alcançada e dando seu primeiro passo de muitos que virão. São pessoas que se conheceram no mundo virtual da internet, em listas de discussões e e-mails, buscando informação sobre um mesmo tema: o autismo. E decidiu-se sair só do online para também o offline, para o bom e velho papel — além de ter um complemento na internet — para disseminar e pulverizar informação  respeito  dos transtornos autísticos do comportamento no Brasil todo. Importante destacar que é a primeira revista exclusivamente sobre autismo na América Latina e a primeira do mundo em língua portuguesa.

E essa publicação têm a convicção de nascer como uma ferramenta útil, sobretudo por várias autoridades no assunto que deram sua contribuição por meio de textos imensamente ricos de informações e esclarecedores em suas áreas. A todos eles, nosso muito obrigado pela confiança.

A Revista Autismo traz informação imparcial: publicando métodos e intervenções chancelados, como também tratamentos alternativos e métodos ainda não aceitos ou comprovados pela medicina tradicional. Na prática, os pais tentam fazer o que acreditam ser o melhor para seus filhos autistas — ou que estejam dentro do espectro autista. E nessa luta por fazer o melhor, se deparam com a mais variada gama de intervenções, e muitas vezes podem ficar pulando de galho em galho para esta ou aquela terapia. Cuidado! Siga orientação profissional, siga seu instinto de pai ou mãe, mas opte sempre pelo que mais for compatível com seus valores, suas crenças e que não traga desconforto ou enormes sacrifícios ou riscos a seus filhos. E o principal: busque orientação profissional. Ao mesmo tempo que digo cuidado, também digo que não tenha medo de tentar, insistir, persistir. Quem vai colher os frutos das vitórias ou derrotas dessa batalha são vocês pais e, principalmente, seus filhos. Portanto, amem-nos, aceitem-nos, não se conformem e ajam — mãos à obra!

Aqui você saberá o que é autismo e verá muitas opções de tratamento, elevando a qualidade de vida do indivíduo e da família afetada por esta síndrome. Saberá das várias dúvidas que a ciência ainda tenta desvendar, mas que tem uma certeza incontestável: quanto antes começarem as intervenções, melhor será a condição de vida da pessoa com autismo. Por isso a suspeita e o diagnóstico precoces são armas que devemos lançar mão com muita rapidez e perspicácia. Agir já!

Em vários artigos, há símbolos codificados, que são QR-Codes, os quais são explicados no texto da página seguinte — não deixe de conferir essa inovação.

O site da revista, www.revistaautismo.com.br, propõe-se a ser uma extensão da publicação impressa, com informações atualizadas e complementos dos textos aqui publicados.

Termino agradecendo o empenho de todos. Foram colaborações em conteúdo, em material, em informações, em contatos, em divulgação ou na simples torcida para que esse projeto desse certo. E já deu! Nosso muito obrigado a todos que colaboraram de alguma forma.

A você que nos lê, desejamos suprir um pouco de sua ânsia por informação a respeito desse tão complexo tema que é o autismo. Ajude-nos a divulgar esse trabalho e a democratizar a informação a respeito do espectro autista. Leia a Revista Autismo e deixe para que outros possam ler, divulgue. Não só para colaborar com as famílias afetadas pela síndrome, mas também para sensibilizar a sociedade, mídia e governos para o que atualmente é uma epidemia mundial, conforme nossa reportagem de capa.

Boa leitura!

Paiva Junior
Editor-chefe, Jornalista, pós-graduado em Jornalismo e Segmentação Editorial, pai do Giovani, de 3 anos, que está no espectro autista, e da Samanta, de 1 ano, com desenvolvimento típico.

E-mail: [email protected]

Twitter: @PaivaJunior

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Edição 0 – Setembro de 2010

Revista Autismo – Número 0 – Ano 1 – Setembro de 2010

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CONTEÚDO EXTRA

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