ABA e o ensino da fala — Celso Goyos — Revista Autismo
Ilustração: Bia Raposo

Com evidências científicas, ABA é ferramenta útil no ensino da fala como linguagem natural

A fala antecede a aquisição da linguagem complexa e é uma das características mais marcantes que o ser humano apresenta, sendo, para muitos, o divisor de águas entre seres humanos e infra-humanos. Quando, após a idade de 18 meses, a criança não apresenta a fala, ou a apresenta, mas de forma menos desenvolvida do que outras crianças de mesma idade e de nível sócio-econômico-cultural semelhante, é motivo de grande preocupação para os pais. Se a ausência, ou atraso, da fala persiste após os 18 meses, e a criança não apresenta prejuízo na estrutura auditiva e na estrutura da fala, tampouco apresenta prejuízos neurológicos significativos que justifiquem a condição, esta criança pode estar sob suspeita do diagnóstico de autismo. Este diagnóstico pode se confirmar, ou não, a depender das outras características definidoras apresentadas na condição do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

A partir deste diagnóstico, a necessidade de tratamento é imediata e intensa (conforme Lovaas publicou, em 1987). Aqui, é interessante fazer uma comparação para se ter uma real dimensão do trabalho a ser imediatamente enfrentado. A criança com desenvolvimento típico adquire nove palavras novas por dia (como Gândara e Befi-Lopes escreveram, em 2010) a partir dos 18 meses, ou seja, aos três anos de idade a criança deverá apresentar um léxico correspondente a 5 mil palavras. Para não perder contato com a linha de desenvolvimento típico, é necessário atendimento imediato e eficaz. A decisão sobre qual terapia é a mais eficaz requer atenção muito especial da parte dos pais.

Dentre as possibilidades de tratamento disponíveis para o TEA, está a Análise de Comportamento Aplicada, cuja sigla mais conhecida é ABA, do inglês, Applied Behavior Analysis. Trata-se de uma ciência relativamente antiga, que se tornou mais conhecida a partir do trabalho de Lovaas em 1987. Não se trata de qualquer modismo, como muitas outras formas de tratamento atuais. A análise de comportamento tem origem no início do século 20 e, como alicerce, evidências experimentais sólidas e fidedignas e os resultados de sua tecnologia encontram-se ampla e fartamente divulgados em periódicos científicos de reconhecimento nacional e internacional.

Existem sólidas evidências científicas de que ABA se constitui na mais eficaz estratégia para o tratamento do autismo. As evidências iniciais datam da década de 1980, tendo sido o primeiro trabalho científico a mostrar como terapia comportamental intensiva e precoce pode ajudar crianças autistas, dando os primeiros sinais de esperança e alento para os pais.  Esses resultados foram replicados em diversos estudos posteriores (como Howard, Sparkman, Cohen, Green & Stanislaw, em 2005; Virués-Ortega, em 2010; Eikeseth, Klintwall, Jahr & Karlsson, em 2012; e Howard, Stanislaw, Green, Sparkman & Cohen, em 2014).

Particularmente, os avanços recentes registrados na área de linguagem foram extraordinários. A partir da concepção sobre o comportamento verbal, foram desenvolvidas novas teorias comportamentais sobre a linguagem: a Teoria da Nomeação (estudada por Horne & Lowe, em 1996), a Teoria da Equivalência de Estímulos (em 1994) e a Teoria dos Quadros Relacionais (de Hayes, Barnes-Holmes, & Roche, em 2001). O resultado destes avanços podem ser observados na enorme variedade de procedimentos de ensino que tem sido desenvolvida, com possibilidades notáveis de aplicação prática, particularmente com crianças com autismo, mas não restritamente a elas.

Um exemplo da conjunção dessas teorias comportamentais sobre o comportamento verbal encontra-se no livro “ABA: Ensino da fala para pessoas com autismo” — de minha autoria, publicado no fim de 2018. O programa de ensino proposto nesta obra é uma alternativa e/ou complemento a outros existentes, já descritos na literatura analítico-comportamental. Enfatizamos, neste livro, a importância do ensino da fala como linguagem natural da criança que não possui qualquer impedimento para a fala. A fala é entendida como comportamento como outro qualquer, com a especificidade de se apresentar como resposta verbal oral e, como tal, é instalada e mantida pelas consequências que ela produz sobre o meio ambiente.

Antes de se dar início ao desenvolvimento da fala propriamente dita, há que se pavimentar a estrada para a sua ocorrência, através da instalação de seus pré-requisitos ou de eliminação de barreiras. Os primeiros constituem-se em comportamentos pivotais ou cúspides comportamentais, tais como, contato visual sob controle instrucional, conceito de imitação generalizada, o conceito de identidade e o ouvir generalizado, dentre outros. As barreiras são basicamente todos os comportamentos que se incompatibilizam com o ensino dos comportamentos pivotais. Em seguida, ensina-se a fala, através do operante verbal conhecido como ecoico para, como base fundamental, em seguida, ensinar os operantes verbais de mando, tato e intraverbal, a leitura com compreensão, a composição da linguagem, falada e  escrita, de forma ordenada, o passado, o futuro, a linguagem matemática e mais outras formas de linguagem complexa.

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