Odontologia: Com ou sem anestesia? PDF Imprimir E-mail
Edições - Edicao 2
Escrito por Adriana Zink   
Seg, 02 de Abril de 2012 12:00
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Por Adriana Zink

 

“Trate a todos igualmente, tratando a cada um de forma diferente”

 

Durante a apresentação de um painel na 28ª reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (2011), em Águas de Lindóia - SP, com Maria Teresa Botti Rodrigues dos Santos e Renata Guaré — cirurgiãs-dentistas com doutorado, especialistas em pacientes com necessidades especiais, em que foram avaliados 24 pacientes com diagnóstico de autismo, mostramos estatisticamente o número de pacientes no espectro autista que ainda recebem o tratamento odontológico com anestesia geral e contenção física, e evidenciar a necessidade do condicionamento lúdico para a abordagem desse público, minimizando as intervenções com anestesia geral.

 

Hoje sabemos que 53,8% dos pacientes autistas ainda recebem o tratamento odontológico com anestesia geral no Brasil. Esse é um procedimento seguro, mas deve ser usado apenas como último recurso disponível. 77% dos pacientes autistas são atendidos com contenção física, seja com a ajuda dos pais, com faixas de contenção ou com uso de estabilizadores (tipo Godoy).

 

Outro lado importante do painel foi mostrar ao cirurgião-dentista que existem muitos pacientes no espectro autista (embora sem estatísticas oficiais no Brasil), e que os pais estão atentos aos estudos e métodos de atendimento, devendo esse profissional se atualizar e oferecer um tratamento mais humanizado para tal público.

 

O condicionamento lúdico para o tratamento odontológico é muito gratificante para o profissional, para os familiares e para os pacientes que o recebem. É um método que motiva o profissional a conquistar a confiança do paciente e de seus familiares em seu trabalho. Por outro lado, tanto a família quanto o paciente, aprendem muito nessa intervenção e esse aprendizado vai além de uma restauração bem sucedida ou um tratamento endodôntico (canal) tecnicamente fantástico. Cada dia é uma conquista e juntos receberão os prêmios pelos referidos méritos. Vale a pena tentar sempre! Falo “tentar” porque não podemos prometer nada aos pais, apenas que sabemos a técnica, temos boa vontade, somos éticos e queremos fazer o melhor. Honrar um compromisso ou uma promessa é um depósito enorme. Romper com o prometido é uma retirada imensa, por isso não devemos prometer o que não sabemos se iremos cumprir. Isso criaria uma expectativa enorme nos pais. Para evitarmos esses problemas de relacionamento entre pais e profissionais devemos conversar anteriormente e deixar claras quais são as expectativas em relação ao tratamento. Por isso se faz necessária uma entrevista inicial sem a presença do paciente, porque essa entrevista pode levar um tempo acentuado e nosso paciente não teria paciência de esperar. Nela, tudo será discutido, questionado e esclarecido.

 

Temos muitas publicações na área da psicologia, que mostram alterações comportamentais após o uso da anestesia geral e, se estamos falando de pacientes que já apresentam alterações comportamentais, devemos estar atentos à intensificação dessa alteração. Uma publicação da médica americana Dra. Lena S. Sun também relata essa alteração comportamental pós anestesia geral. Todo paciente que necessita de um procedimento com anestesia geral deve realizá-lo, mas se esse procedimento pode ser realizado em ambiente ambulatorial essa é e será sempre a melhor opção. Muitos pais não presenciam a indução da anestesia geral em ambiente hospitalar, esse momento é estressante, quando o paciente não está sedado com um pré-anestésico., fica muito agitado, e em muitos casos é usada a contenção física. Tive uma experiência com um paciente que literalmente lutou com os enfermeiros porque ele não queria ficar vestido com aquela camisola típica dos hospitais, logo o estresse maior foi para colocar a roupa e não para fazer o procedimento. Noutro caso, enquanto esperava que os profissionais induzissem o paciente a anestesia geral, fiquei apenas observando a forma que abordaram e manejaram aquele paciente autista, bom, foi preciso usar a contenção física, muitos profissionais segurando, gritos, e demais comportamentos. Foi traumatizante. Toda essa situação não é presenciada pelos pais. Com várias experiências como essas, preferi condicionar e deixar irem para a anestesia geral apenas aqueles que realmente precisam, mesmo que o retorno financeiro seja menor comparado ao procedimento realizado em ambiente hospitalar. Todos sabemos que os custos de intervenções hospitalares são sempre elevados em relação a procedimentos feitos em ambulatório. É claro que, em muitos casos e a pedido exclusivamente dos pais, o procedimento seja realizado com anestesia geral alegando resolver “o problema” de uma só vez. Nesse caso passo todas as orientações aos pais e eles optam pela forma de tratamento que querem para seus filhos, assumindo as conseqüências de suas escolhas. Muitos alegam não dispor de tempo para sessões de condicionamento lúdico para o tratamento odontológico.

 

Inicialmente, alguns pacientes mais comprometidos poderão necessitar do estabilizador físico, mas, aos poucos esse é eliminado e acaba sendo usado como condicionador. O uso da anestesia geral é mais tranqüilo para o profissional porque nesse momento não temos que nos deparar com alterações comportamentais e o paciente está imóvel, com redução do fluxo salivar, podemos fazer tudo de uma vez, ninguém reclama, não tem choro, etc. O tratamento dessa maneira pode ser realizado por qualquer cirurgião-dentista porque a odontologia é a mesma para todos, não sendo necessário ser especialista em pacientes especiais. Nesse caso, o custo é maior para os pais, para o convênio ou para o Estado, dependendo de quem estiver custeando o tratamento.

 

Com uso de condicionamento em ambulatório (consultório), todo procedimento deve ser realizado com ética, conhecimento, competência e planejamento. O paciente não deve sentir dor durante os tratamentos odontológicos, por isso é indicada a anestesia local em casos que o profissional julgue ser necessário seu uso. Em alguns casos para conseguir uma anestesia segura precisamos conter o paciente com uso do estabilizador ou mesmo com ajuda dos pais. Quando o paciente percebe que não sentiu dor durante o tratamento odontológico ele aprende a confiar no profissional e melhora o comportamento nas próximas sessões. Nesse momento é muito importante a confiança dos pais no profissional escolhido. Eles ajudam a tranqüilizar o paciente durante esse aprendizado. Toda essa experiência servirá para a vida adulta desse paciente facilitando as visitas ao cirurgião-dentista durante toda a vida. Não precisamos que o paciente goste do dentista, mas ele tem que saber que é preciso ir ao consultório e que tem que passar por isso. É a aquisição de mais uma habilidade. Pais, acreditem que é possível sempre!

Aprendemos muitas situações passando por elas. Sempre faço essa pergunta aos pais que me procuram para tratar e condicionar seus filhos: ”Você gosta de ir ao dentista? Então porque seu filho tem que gostar?”.

 

Alguns também querem de todo jeito que a criança fique sentada na cadeira odontológica, mas esqueceram quantos meses essa mesma criança levou para aprender que na escola precisava ficar sentada na carteira. Alguns educadores relatam que crianças autistas levam em torno de 6 meses para se adaptarem à rotina da sala de aula, por que a criança teria que se adaptar em um tempo menor à rotina do consultório odontológico? Pais, “Tenham paciência! Respeitem o tempo de seus filhos!” Temos que subir um degrau de cada vez. A confiança é a forma mais elevada da motivação humana.

 

Hoje sabemos que o treinamento do cirurgião-dentista para o condicionamento lúdico é possível e está sendo realizado na pós-graduação da UNICSUL em São Paulo. Muitos colegas já estão conhecendo a técnica e aplicando-a a seus pacientes com retorno muito positivo. As aulas são práticas e teóricas, com uso de imagens, vídeos motivacionais, troca de conhecimentos e atualizações no tema.

 

O profissional não deve rotular pacientes, cada um é único e devemos tentar sempre. O mundo está conhecendo o autismo e nós cirurgiões-dentistas também. Estamos engatinhando junto a muitos outros profissionais que não sabiam como fazer, a quem perguntar, como ajudar, sabíamos apenas ser cirurgiões-dentistas e como já disse anteriormente, a odontologia é a mesma para todas as pessoas.

 

No serviço público de todo o país, esse tipo de atendimento poderia ser feito ainda nas unidades básicas de saúde enviando aos especialistas apenas aqueles casos mais complicados e isso diminuiria o número de intervenções com anestesia geral e também o custo com os procedimentos. O profissional necessitaria apenas do treinamento com a técnica do condicionamento lúdico para o tratamento odontológico.

 

A prevenção é o melhor caminho! Quando a criança inicia precocemente as visitas ao cirurgião-dentista ela já está inserida na prevenção de cáries e doença periodontal, diminuindo o número de procedimentos a serem realizados futuramente. O profissional também está apto a orientar o cuidador (pais e responsáveis) sobre como realizar a higiene oral, como facilitar que essa tarefa aconteça da melhor maneira possível e também está capacitado a identificar as limitações do paciente e adequar o tratamento e os cuidados à sua rotina. Nós também somos limitados, mas podemos ampliar as fronteiras de nossas limitações e juntos alcançarmos um bem comum, que é a qualidade no tratamento odontológico ao paciente autista.

 

O profissional treinado para atender pacientes autistas faz a mesma odontologia para todos, o que muda é a abordagem e o conhecimento das alterações comportamentais que o paciente possa ter durante as sessões. O profissional também precisa saber como reagir se o paciente apresentar alguma alteração comportamental. Lembre-se: toda ação tem uma reação.

 

Não faça para o outro o que não gostaria que fizessem a você ou a seu filho, essa é uma regra de ouro e quer dizer, na sua essência, que você deve simplesmente entender a necessidade do outro. “Trate a todos igualmente, tratando a cada um de forma diferente”.

 

Um dia uma mãe relatou que seu filho era atendido sem anestesia local porque a “colega” dentista afirmou que autista não tinha dor. Fiquei perplexa! Até hoje não entendo como alguém pode ser tão cruel. Como essa criança poderia ficar quieta numa cadeira odontológica, durante um procedimento de canal e não gritar, chorar, bater em todos se ela sentia DOR? E depois, como tirar o trauma dessa criança? É uma criança difícil porque é autista ou porque um “profissional” não soube tratá-la? Com certeza eu seria bem “difícil” também. Somos livres para escolher as ações, mas não somos livres para escolher as consequências dessas ações, temos apenas que assumi-las. No relacionamento paciente-profissional, as pequenas coisas se equivalem às grandes coisas. Não despreze as pequenas coisas!

 

A saúde começa pela boca, consulte um cirurgião-dentista. Procure no CRO de sua cidade quem são os especialistas em pacientes com necessidades especiais aptos a esse atendimento, você vai encontrar o profissional certo no momento certo.

 

Adriana Gledys Zink é cirurgiã-dentista, mestranda da UnicSul, especialista em atendimento a pacientes com necessidades especiais, principalmente com autismo. Foi vencedora do VI Prêmio Orgulho Autista Brasil 2011 em 2 categorias: blog e foto autista no dentista. Atende em São Paulo (SP) e seu e-mail é [email protected] e o site é http://adrianazink.blogspot.com

 

Odontologia: Com ou sem anestesia?
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