Polêmica entre vacina e autismo termina em cassação de médico PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Paiva Junior   
Qui, 16 de Setembro de 2010 16:45
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por Paiva Junior 

A acusação é grave: a vacina tríplice viral - SCR, contra sarampo, cachumba e rubéola (MMR, na sigla em inglês) -- causaria autismo em crianças. E um estudo confirmando isso foi publicado na mais respeitada revista médica britânica, “The Lancet, em fevereiro de 1998, por Andrew Wakefield, médico inglês especialista em gastroenterologia pediátrica. A história culminou na cassação do médico no Reino Unido, em maio deste ano.

 

O caso é polêmico e há pelo menos duas versões bem distintas. Uma considerando Wakefield um charlatão, culpado pela queda dos índices de vacinação e o reaparecimento de sarampo na Inglaterra e em outros países. Outra entende que o médico britânico é uma vítima da forte influência da indústria farmacêutica (que só perde para a indústria de armas em poder econômico), interessada em vender vacinas.

 

Sabe-se que decidir por não vacinar o filho é uma séria responsabilidade e não deve ser tomada, jamais, sem a orientação médica, muita reflexão e a plena consciência dos riscos que se pode ocorrer. Porém, a escolha é única e exclusivamente feita pelo pais, que em casos de autismo na família ficam numa difícil encruzilhada.

O estudo

Segundo o estudo de Wakefield, algumas crianças precisariam de um gatilho ambiental para “despertar” o autismo e seus sintomas, aos quais já estariam pré-dispostas, possivelmente por uma questão genética -- portanto, mesmo entre os indivíduos com a “genética do autismo”, nem todos estariam suscetíveis a esse gatilho ambiental.   O gatilho seria um agente químico, o mercúrio, presente em várias vacinas. Especificamente na SCR, há Timerosal, um conservante que tem 49% de mercúrio em sua composição.

 

Há relatos de muitos pais que dizem observar os sintomas do autismo somente depois da primeira dose ou do reforço da vacina tríplice viral. Para Wakefield, uma prova. Para muito outros médicos, uma coincidência.

 

Ainda não foi possível chegar a uma conclusão cem por cento inconteste sobre este assunto. Há brechas e falhas tanto nos estudos que comprovam, quanto nos que refutam essa hipótese, o que deixou muitos pais desconfiados sobre essa questão.

 

O fato é que, depois que esse polêmico estudo foi publicado, muitos pais pararam de vacinar os filhos, o que levou a um ressurgimento do sarampo no Reino Unido. Naquele país, a taxa de vacinação nunca mais voltou a subir e tornaram-se comuns surtos de sarampo.

 

Depois de ter declarado que a pesquisa jamais deveria ter sido publicada, a revista The Lancet retratou-se, no dia 2 de fevereiro deste ano, a respeito do estudo de 1998 e apagou o artigo de seu arquivo de publicações. A retratação veio um dia depois de uma revista concorrente, a BMJ, ter divulgado um comentário pedindo a retratação formal do estudo.

 

O que desencadeou a desconfiança de problemas no estudo de Wakefield foi a forma, no mínimo inusitada, com que o médico conseguiu as amostras de sangue das crianças para realizar a pesquisa: festa de aniversário de seu filho, ele pagou 5 libras (cerca de R$ 15) a cada convidado que aceitou “colaborar” com a ciência.

 

Depois disso, outras falhas técnicas foram apontadas na pesquisa de Wakefield, que teve 13 coautores. Desses, dez repudiaram as conclusões do trabalho nos últimos anos.

 

A versão que coloca Wakefield como vítima culpa a indústria farmacêutica e sua forte influência política e econômica para continuar a vender vacinas. Nessa hipótese, grandes fabricantes estariam dando suporte velado às acusações para que o estudo do médico caísse em descrédito. Porém, nada disso foi confirmado e fica apenas no campo dos rumores -- como as suspeitas de que alguns coautores da pesquisa estariam sendo financiados por grandes marcas de vacinas depois de terem repudiado publicamente as conclusões do trabalho de Wakefield.

 

Duas decisões de um tribunal federal dos EUA determinaram que não há ligação entre vacina e autismo. Porém, números oficiais dão conta de que as queixas apresentadas ao Judiciário estadunidense, por famílias que buscam indenização para crianças que alegam terem sido prejudicadas pela vacina SCR, já superam a assustadora marca de 5.500 processos.

 

Alguns estudos foram feitos em outros países, porém nenhum com o devido rigor e credibilidade para colocar um ponto final nesta polêmica, que ainda parece ter um longo caminho a percorrer.

Cassação

No dia 24 de maio deste ano, o Conselho Médico Geral do Reino Unido (GMC, na sigla em inglês) -- a mais importante associação médica daquele país -- cassou a licença profissional de Wakefield, acusando-o de ter demonstrado um "desprezo brutal" pelas crianças usadas no estudo, e ter agido com falta de ética.

 

O médico britânico não poderá exercer a profissão no Reino Unido, mas não está impedido de fazê-lo em outros países -- como, por exemplo, nos Estados Unidos, onde ele atualmente reside e continua trabalhando em suas pesquisas.

 

O médico diz que o governo dos EUA vem pagando indenizações por autismo supostamente causado por vacinas desde 1991 e que a decisão contra si -- baseada em acusações de comportamento antiético na conduta da pesquisa -- estava "definida desde o início" e prometeu continuar suas pesquisas sobre o elo entre vacinação e autismo. "Esses pais não vão sumir, essas crianças não vão sumir e eu certamente não vou sumir", disse ele.

Para alguns é um herói, quase um mártir da medicina. Para outros, um oportunista charlatão. Amado por uns, odiado por outros. Uma conclusão, porém, é consenso: toda essa polêmica gerou dúvida acerca das vacinas em relação ao autismo e deixou muitos pais em situação difícil na decisão sobre vacinar ou não.

 

A verdade completa sobre esta história? Certamente, nunca saberemos.

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