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Escrito por Cláudia Dias   
Qui, 16 de Setembro de 2010 17:22
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por Cláudia Dias

O meu nome é Claudia T. Dias e sou a mãe orgulhosa de um lindo menino de nove anos, autista. Dizem que o autismo escolhe as mães e eu sinto-me escolhida sim... Aos 23 anos, eu queria muito ter um filho, afinal tinha casado e estava feliz, e que felicidade é maior que ter um filho? Mas o tempo passava e eu não conseguia, dei comigo a fazer testes de gravidez todas as semanas. Assim, quando cheguei aos 27 anos, e quando já tinha desistido de ser mãe, eis que apanho a surpresa da minha vida quando fiz o teste de gravidez para fazer a vontade do meu marido: grávida! Meu filho nasceu sem problemas, mal pude esperar para levá-lo para casa, mas quatro dias depois estamos nos cuidados intensivos e o meu menino tinha perdido 400g e corria o risco de ter uma parada cardíaca, a subnutrição era o problema, ele não estava comendo, mas isso foi superado, e o Ricardo teve uma boa recuperação. Em uma semana estávamos em casa.

Ricardo revelou-se uma criança difícil desde bebê. Os padrões de sono nunca aconteceram e passava dias sem comer, a não ser líquidos. A comida sólida foi um problema, com vômitos constantes. Veio o momento de vacinar e lá fomos nós, como pais diligentes. Mas, a partir daí ele passou a ter febres altas, que vinham e desapareciam sem aviso. Minha intuição de mãe me dizia para não vacinar mais o meu filho e eu adiei a segunda dose da SCR (sarampo, cachumba e rubéola - MMR, na sigla em inglês) o mais que pude, até que a pressão do sistema foi insuportável, com cartas semanais para a nossa casa, em Cambridge (Inglaterra). E lá fomos nós. E aos três anos, o Ricardo tomou a segunda dose. Em pouco tempo os nossos problemas começaram: o meu filho começou a deixar de falar, cada dia estava mais introspectivo, silencioso, com crises diárias e as babás deixaram de querer tomar conta dele (diziam que não era possível tomar conta do Ricardo e de outras crianças ao mesmo tempo), assim o Ricardo foi passando de babá em babá. Ele foi para a pré-escola e  os problemas continuaram,  com crises de violência e todas as semanas  eu tinha  uma conversa junto às auxiliares, com recomendações para levar o Ricardo ao médico. Nessa altura, tudo era uma luta com o Ricardo e eu sentia-me a pior mãe do mundo.

Meu filho foi para a escola e numa semana os problemas começaram: pela primeira vez ouvi a palavra autismo, que foi confirmada mais tarde pelo psicólogo educacional. Naquele dia, não me lembro de chegar em casa ou do que aconteceu. O meu mundo tinha acabado, o meu menino, o amor da minha vida (como eu lhe chamo) tinha algo para o qual não havia cura, ele nunca iria fazer isso ou aquilo e, para dizer a verdade, eu deixei de ouvir o que o médico me disse depois da palavra autismo.

Existem mães que falam de um sentimento de alívio quando do diagnóstico, mas comigo isso não aconteceu. Eu levei um balde de água fria, do qual só acordei um ano depois, para ver que o meu filho estava perdendo habilidades já consolidadas, a última gota de água foi ele voltar a usar fraldas com sete anos, depois de deixá-las aos quatro. Ele não estava tendo qualquer acompanhamento e no meu desespero eu fui deslizando, sem perceber, para o abismo da impotência.

Mas os grupos de discussão na internet, como Autismo Tratamento” e “Autismo Esperança” mudaram tudo isso para nós, foram a minha inspiração. A dieta SGSC (sem glúten e sem caseína), o tratamento biomédico, hidroterapia e hipoterapia devolveram-me o meu filho, sendo que a integração sensorial, o RDI e Terapia da Fala vieram também a ajudar. Eu resolvi deixar o trabalho para me dedicar ao meu filho e daí a profissionalização em Psicologia foi um passo que aconteceu naturalmente.

Os progressos têm sido constantes, tanto que não existe espaço aqui para os enumerar, mas o mais recente foi o fato de o Ricardo ter a linguagem receptiva ao nível de uma criança da sua idade, nove anos, depois de, por um longo tempo, batalhar com relatórios de performances sempre abaixo da idade dele, esta notícia me faz feliz, mas a minha maior felicidade é saber que ele hoje é uma criança feliz. Nós somos uma família feliz, o autismo deu-nos outro ethos (palavra grega que significa maneira de ser, de estar na vida), uniu-nos e tornou-nos mais fortes, o nosso caminho pode não ser o mais rápido, mas estamos no caminho certo.

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